Diversidade linguística
Língua Guarani Mbya

O Mbya é uma das três variedades modernas da Língua Guarani, da família Tupi-guarani, tronco linguístico Tupi. As outras são o Nhandeva ou Chiripá/Txiripa/Xiripá ou Ava Guarani e o Kaiowa. No entanto, a delimitação entre essas variedades não aparece de modo estanque e consensual. Além disso, os falantes utilizam outras formas para nomeá-las.
Nestas variedades, a língua Guarani é falada amplamente em quatro países – Paraguai, Argentina, Bolívia, Brasil –, sendo designada língua oficial do Estado Paraguaio, língua oficial para o trabalho no Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) ao lado do Português e do Espanhol, e língua cooficial do Município de Tacuru - Mato Grosso do Sul - Brasil.
Região de origem: movimentos migratórios de grupos conhecidos como Guarani parecem ter se originado na bacia amazônica. A literatura indica que tais grupos habitaram as selvas subtropicais do Alto Paraná, do Paraguai e do Uruguai médio. A maioria dos Mbya seria proveniente da região do Guairá. Estima-se que ali viviam, no século XVI, cerca de 150 mil Guarani. Hoje habitam variadas regiões da América Latina, nomeadamente na Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil.
Em todo o litoral Sul do Brasil, do Espírito Santo até o Rio Grande do Sul, e em muitos pontos da linha fronteiriça do Brasil com a Argentina e Paraguai, e em menor escala com a Bolívia, encontraremos aldeias Guarani nas quais se fala somente ou majoritariamente a variedade Mbya. Sessenta e nove delas, localizadas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, foram inventariadas.
Guaraní Mbya
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ABELHA |
EI, EIRU |
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AZUL |
OVY |
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BICHO |
VIXO |
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BOI |
VAKA AVA |
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CACHORRO |
JAGUA |
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CAMISA |
KAMIXA |
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CAVALO |
KAVAJU |
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DIA |
ÁRA |
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DÚVIDA |
RI |
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ESCORPIÃO |
JAPEUXA |
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ESTRADA |
APE, TAPE |
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FERIDA |
AI |
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FLOR |
POTY, YVOTY |
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FRUTA |
'A |
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GALINHA |
PERÕ, URU |
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GRILO |
KYJU |
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HOMEM |
AVA |
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ILHA |
YY PA'U |
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JACARÉ |
JAKARE, PA'I |
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LARANJA |
NARÃ |
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LEITE |
KAMBY |
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LOBO |
GUARY |
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LUA |
JAXY |
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MACACO |
KA'I |
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MÃE |
XY, MAMÃE |
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MEL |
EI |
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NOITE |
PYT |
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ONÇA |
XIVI |
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PAI |
U |
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PÉ |
PY |
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PEDRA |
ITA |
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PÊSSEGO |
PEXIKO |
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PORCO |
KURE, PORYKO |
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QUEIJO |
KAMBY KEKUE, KÉXU |
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QUERO-QUERO |
TEU TEU |
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RELÂMPAGO |
OVERA |
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RIO |
YAKÃ |
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SANGUE |
UGUY |
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SOLUÇO |
JOJOI |
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TATU |
TATU |
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TERRA |
YVY |
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TOURO |
TORO |
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TUCANO |
TUKÃ |
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URUBU |
XAPIR, URUVU |
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VACA |
VAKA |
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VERMELHO |
PYTÃ |
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VIDA |
EKO |
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XÍCARA |
KARO |
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ZANGADO |
VAI |
Gaúcho

Do convívio entre os imigrantes espanhóis e portugueses com os indígenas ocorreu intensa miscigenação, originando o que se denominou o gaúcho (cafuzos de índios je-tupi-guarani com ibero-europeus) e o surgimento de uma cultura específica com expressões linguísticas próprias. Em constante conflito com os castelhanos (argentinos e uruguaios de origem espanhola) e com a Coroa Portuguesa, os gaúchos cultivaram seu isolamento e passaram a utilizar a diferenciação linguística como instrumento de posicionamento político.
O gaúcho, também conhecido como guasca, é uma variação do português falado no Rio Grande do Sul e em parte do Paraná e de Santa Catarina. Muito influenciado pelo espanhol, mas também pelo guarani e outras línguas indígenas, assim como por línguas africanas, o gaúcho possui grandes diferenças léxicas e semânticas em relação ao português padrão.
Exemplos de miscigenação linguística no Gaúcho
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GAÚCHO |
ORIGEM |
PORTUGUÊS |
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AFEITAR |
espanhol |
fazer a barba |
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BAGUAL |
crioulo |
cavalo que não foi castrado, homem |
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BALAQUEAR |
crioulo |
gabar-se, mentir, conversar fiado |
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BUENACHO |
espanhol |
muito bom, excelente; bondoso, cavalheiro |
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CAMPANHA |
português |
planície rio-grandense, pampa |
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CAPILÉ |
francês |
refresco de verão feito com um pouco de vinho tinto, água e muito açúcar |
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CHARQUE |
espanhol platino |
carne de gado, salgada em mantas |
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CHASQUE |
quíchua |
mensageiro, estafeta |
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CHUCRO (XUCRO) |
quíchua |
animal arisco, nunca domado; pessoa de mesmo temperamento ou sem empirismo, inexperiente |
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GARUPA |
francês |
parte superior do corpo das cavalgaduras que se estende do lombo aos quartos traseiros; também usado para definir a mesma área no corpo humano |
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GAUDERIAR |
espanhol platino |
vagabundear, andar errante, sem ocupação séria; haragano |
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GURI |
tupi |
criança, menino; serviçais que faziam trabalho leve nas estâncias |
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JAPIRACA |
tupi |
mulher de temperamento irascível, insuportável |
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JURURU |
tupi |
triste, cabisbaixo, pensativo |
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MATE |
quíchua |
bebida preparada em um porongo com erva-mate e água quente; chimarrão |
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MINUANO |
espanhol platino |
vento andino, frio e seco, que sopra do sudoeste no inverno |
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MOROCHA |
espanhol platino |
moça morena, mestiça, mulata; rapariga de campanha |
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NATIVISMO |
português |
amor pelo chão onde se nasce e sua tradição |
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PAMPA |
quíchua |
vastas planícies do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, cobertas de excelentes pastagens que servem para criação de gado |
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PUCHERO (PUTCHERO) |
espanhol |
sopão com muitos vegetais e carne de peito, sem tutano e sem pirão |
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QUERÊNCIA |
espanhol |
o lugar onde se vive; derivado de querer, caracteriza o amor que o gaúcho tem pela sua terra |
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TOPETE |
português/espanhol |
audácia, arrogância, atrevimento; saliência da erva-mate que fica fora d’água na cuia de chimarrão |
Expressões Gaúchas
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AGUENTAR O TIRÃO |
suportar as consequências ou uma situação difícil |
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ANDAR PELAS CARONAS |
andar mal, estar em dificuldade |
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ARRASTAR A ASA |
enamorar-se |
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BEM CAPAZ |
ênfase na negação |
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BOTAR OS CACHORROS |
xingar, ofender alguém |
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DAR COM OS BURROS N'ÁGUA |
dar-se mal, ser malsucedido |
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DEITAR NAS CORDAS |
fazer corpo mole |
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DE RÉDEAS NO CHÃO |
entregue, submisso, apaixonado |
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DE VALDE |
de balde, em vão |
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DE VEREDA |
imediatamente, já |
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É TIRO DADO E BUGIO DEITADO |
acertar de primeira; ter certeza do que faz |
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ENTREGAR AS FICHAS |
ceder, concordar |
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ESTAR COM O DIABO NO CORPO |
estar furioso, insuportável |
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FACEIRO QUE NEM GURI DE CALÇA NOVA |
muito contente, alegre |
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FACEIRO QUE NEM GORDO DE CAMISA NOVA |
o mesmo do item anterior |
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FACEIRO QUE NEM ÉGUA DE DOIS POTRIOS |
o mesmo do item anterior |
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FRIO DE RENGUEAR CUSCO |
frio tão intenso que pode deixar um cachorro mancando |
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ÍNDIO VELHO |
camarada |
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IR AOS PÉS |
fazer as necessidades na patente |
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JUNTAR OS TRAPOS |
casar, viver junto |
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LAMBER A CRIA |
mimar o filho |
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LAGARTEAR |
ficar sem fazer nada, ao sol |
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MATAR CACHORRO A GRITO |
estar sem dinheiro, estar na miséria, viver com dificuldade |
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ME CAIU OS BUTIÁ DOS BOLSO |
ficar de queixo caído, espantado |
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METER A VIOLA NO SACO |
calar-se, desistir, acovardar-se |
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MORAR PARA FORA |
morar no campo (fazenda, sítio ou vila pequena) |
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NA PONTA DOS CASCOS |
pisando em ovos/ preparado, pronto - na ponta dos cascos - refere-se a cavalo que está pronto para corrida (favorito) |
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NO MATO SEM CACHORRO |
em dificuldade, em apuros |
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OLHAR DE COBRA CHOCA |
olhar dissimulado |
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SE APROCHEGAR |
chegar mais próximo, se acomodar |
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SENTAR O BRAÇO |
surrar, espancar, esbofetear, bater |
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TERNEIRO GUACHO |
tomador de leite |
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TUNDA DE LAÇO |
apanhar |
Colonização alemã
O HUNSRÜCKISCH é uma língua alemã falada na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, e em algumas regiões dos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Espírito Santo. Para diferenciar a língua usada no Brasil daquela usada na Alemanha, denominou-se o falar brasileiro de RIOGRANDENSER HUNSRÜCKISCH (Hunsriqueano riograndense).
Exemplos de miscigenação no Hunsriqueano riograndense
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PALAVRA EM HUNSRÜCKISCH |
PALAVRA EM ALEMÃO |
PALAVRA EM PORTUGUÊS |
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FESCHÓN |
BOHNEN |
FEIJÃO |
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FAKÓN |
BUSCHMESSER |
FACÃO |
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MAKÁK |
AFFE |
MACACO |
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ONZE |
JAGUAR |
ONÇA |
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KAROSE |
LEITERWAGEN |
CARROÇA |
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SCHURASKE |
GRILL |
CHURRASCO |
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MULE |
MALTIER |
MULA |
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PAST |
WEIDE |
PASTO |
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SCHIKÓT |
PEITSCHE |
CHICOTE |
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AVIONG |
FLUGZEUG |
AVIÃO |
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KAMIONG |
LASTWAGEN |
CAMINHÃO |
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ROSSA |
FELD |
ROÇA |
Colonização italiana
O TALIAN é uma das autodenominações para a língua de imigração falada no Brasil na região de ocupação italiana direta e seus desdobramentos desde 1875, em especial no nordeste do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Espírito Santo.
Entre outras autodenominações, constam termos como língua dos nonos, dialeto vêneto e dialeto italiano. É uma variedade suprarregional intracomunitária e de intercomunidades (coiné) do italiano como língua alóctone em contato com outras variedades do italiano e com o português do Brasil, vinculada historicamente aos dialetos provenientes do norte da Itália, mas com características próprias, derivadas do contexto brasileiro que a difere da matriz original e de outras regiões brasileiras.
Sua origem linguística é o italiano e os dialetos falados, principalmente, nas regiões do Vêneto, Trentino-Alto e Friuli-Venezia Giulia e Piemontes, Emilia-Romagna e Ligúria.
Exemplos de miscigenação linguística no Talian
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PALAVRA EM TALIAN |
PALAVRA EM VÊNETO ORIGINAL |
PALAVRA EM ITALIANO PADRÃO |
PALAVRA EM PORTUGUÊS |
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BOLO |
Torta |
Torta, dolce |
BOLO |
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CARO, AUTO |
Machina, auto |
Macchina, auto |
CARRO |
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CORAÇON |
Cor, core |
Cuore |
CORAÇÃO |
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GALIGNERO |
Punaro ou punèr |
Pollaio |
GALINHEIRO |
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GARAFA |
Butiglia |
Bottiglia |
GARRAFA |
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INTON, ALORA |
Alora |
Allora |
ENTÃO |
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PRAIA |
Spiaia |
Spiaggia |
PRAIA |
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SAPATERO, SCARPÈR |
Caleghèr ou scaporlin |
Calzolaio |
SAPATEIRO |
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SIÀ, SCIÀ |
Tè |
Tè |
CHÁ |
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SIMARÓN, SCIMARÓN |
CHIMARRÃO |
||
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SORASCO, CHORASCO |
CHURRASCO |
||
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VERÓN |
Istá |
Estate |
VERÃO |
|
COMO NON! |
Certo! Certamente! Sicuramente! |
Certo! Certamente! Sicuramente! |
COMO NÃO! |




