Os mestres e as rodas: patrimônio vivo

Acervo IphanAo percorrer os olhos rapidamente pelos jornais, a partir da decada de 1970, percebe-se que alguns analistas e estudiosos da cultura popular da época traçam um quadro sombrio para os destinos da capoeira, em muito influenciados pelos danos socioeconômicos e culturais provocados pelo turismo/folclorização e esportização. Coincide, este período, com a decadência das academias tradicionais de capoeira da Bahia - as de Bimba e Pastinha -, com a situação de pobreza em que se encontravam os principais mestres - razão da saída de mestre Bimba para Goiânia, em Goiás - e com a morte de muitos deles num quadro de indigência, num momento em que a capoeira já começava a mostrar possibilidade de ser explorada economicamente.

No final da década, militantes do movimento negro, estudiosos, políticos, carnavalescos e estudantes universitários começam a denunciar a folclorização da cultura negra e reivindicam, aos poderes públicos, medidas que pudessem coibir este processo. Na Bahia, algumas instituições públicas tomaram iniciativas que procuravam atender a estas reivindicações e acabaram sacramentando algumas conquistas em prol das manifestações negras. Em 1977, o Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura Municipal de Salvador iniciou um projeto diretamente relacionado à capoeira que encontrou adesão por parte da comunidade capoeirística, conseguindo abranger desde os mais tradicionais mestres ainda vivos e em condições de participar, como Cobrinha Verde, Atenilo, Waldemar, Canjiquinha, Caiçara, entre outros, até a nova geração composta de praticantes pertencentes a segmentos da classe média, muitos deles universitários.

Este projeto tinha por objetivo agregar todos os estilos de capoeira e todas as tendências que estavam em voga (esporte, folclore, educação) e, através de fórum de debates e apresentações de capoeira, listou os pontos impulsivos e restritivos para a prática da capoeiragem. Além dos mestres e capoeiristas, convidados e consultores eventuais e periódicos, participavam deste projeto intelectuais baianos, estudiosos da cultura negra, membros do Movimento Negro Unificado (MNU), educadores e dirigentes de outras entidades públicas. No ano de 1980, este projeto culminou na realização do Primeiro Seminário Regional de Capoeira e Festival de Ritmo de Capoeira, que deve ser entendido como a primeira iniciativa governamental em prol da capoeira.

No evento, foram levantadas as principais questões que envolviam a capoeira da época e indicados alguns rumos de atuação para orientar as políticas públicas em seu benefício: revitalização da capoeira angola; a introdução da prática da capoeira nas escolas; o incentivo às pesquisas e estudos sobre o tema; a importância de encontrar formas de amparo aos velhos mestres e suas famílias; a realização de novos eventos de capoeira; e a busca de novos espaços para a sua prática.Muitos dessas questões encontram ressonância no momento atual da capoeira.

Apesar de a arte ter se difundido no Brasil e no exterior, isto ocorreu por meio do saber dos mestres que, sem amparo ou recurso, lançaram-se na aventura da errância em busca de condições melhores de vida, dentro e fora do país. Portanto, há uma contradição inerente à difusão da capoeira. Exemplos como o de Mestre João Grande, que recebeu diversas homenagens nos Estados Unidos, revelam a apropriação da capoeira por parte de governos multiculturalistas, que buscam reconhecê-la como parte da diáspora africana e patrimônio próprio. O Brasil, nesse contexto, não seria lugar onde a capoeira se desenvolveu, mas ponto de passagem para sua difusão internacional. A perspectiva é a de que a capoeira, embora marcada pela influência africana, estabeleceu-se como hoje é conhecida no Brasil.

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