Modos de Construir, Modos de Alimentar: Memórias da Paisagem Caeté nas Alagoas

À época da chegada dos portugueses ao Brasil, as terras do litoral sul do atual Estado de Alagoas eram ocupadas por povoações Caeté. Estes povos foram paulatinamente exterminados pelos colonizadores após a morte do bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, ocorrida em 1556. Historiadores divergem sobre a responsabilidade dos Caeté no evento antropofágico. Três sobreviventes do morticínio os acusaram e eles foram decretados “inimigos da civilização”, sendo perseguidos até a sua extinção. No século XVII, a região foi invadida pelos holandeses quando ainda fazia parte da Capitania de Pernambuco. 

O projeto Modos de construir, modos de alimentar: Memórias da Paisagem Caeté nas alagoas se sustenta em evidências baseadas no recorte do tempo, sua contemporaneidade em relação ao horizonte colonial. No recorte geográfico ainda é possível encontrar, em pequenas cidades como Piaçabaçu, Coruripe, Jequiá e outras, memórias residuais sobre os tempos coloniais evidenciadas em fatos históricos, hábitos de plantio, da construção de casas, pesca, produção de ferramentas e utensílios, cantorias, versos e celebrações comunitárias. Como estas práticas estão seriamente ameaçadas de desaparecimento, tornou-se necessário registrá-las o mais rápido possível.

O grupo Estudos da Paisagem, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), tem como ferramentas prioritárias de pesquisa a iconografia, os relatos de época e a observação sensorial e afetiva dos espaços. Sua atuação se dá em favor do patrimônio e da cidadania, movido por um conceito de história engajado no presente. A metodologia adotada no projeto valeu-se desta experiência acadêmica do proponente, que, há oito anos, trabalha com fontes documentais iconográficas nesta região.

No tocante à ocupação holandesa, há extenso material de registro passível de mapeamento, tanto em Alagoas quanto em Pernambuco. Isto se deve ao fato do Conde João Maurício de Nassau, acompanhado de sua comitiva de naturalistas e artistas, ter coletado e catalogado mapas, desenhos, livros, objetos, pinturas de gêneros diversos e um levantamento de fauna e flora desenhados com minúcia. 

Fazendo uso deste acervo seiscentista e também de fontes portuguesas tais como materiais cartográficos, a equipe de pesquisadores buscou ainda o rastreamento bibliográfico de fontes primárias sobre costumes e hábitos, com destaque para aqueles associados aos saberes e fazeres envolvidos na construção de casas e produção de alimentos.

Com este leque de informações, aliados aos recursos computacionais atuais, foi possível cruzar o recorte seiscentista com as evidências destas práticas nos dias de hoje. Assim, construiu-se um horizonte de procedimentos associados às manifestações imateriais, transmitidas de geração em geração por mais de 300 anos. Verificou-se, assim, a sua dimensão histórica e a sua continuidade, esta inserida na diversidade cultural promovida pela ocupação do nordeste brasileiro. Concluiu-se que a contribuição cultural mais remota é de origem Caeté.

A pesquisa, em visitas a campo, demarcou áreas potenciais para o desenvolvimento das atividades e levantou dados sobre as práticas comunitárias, muitas delas ainda assemelhadas àquelas encontradas nos registros documentais mais antigos. Assim, com este cruzamento de informações entre as fontes históricas e os resultados da pesquisa de campo, possibilitou-se a construção de um rico banco de dados digitalizado que relaciona a memória seiscentista aos aspectos contemporâneos associados à alimentação e edificação.
    
As doze práticas culturais inventariadas abordam a utilização da maçaranduba, da mandioca, do ingá, da cana de açúcar, do maracujá, da bananeira e da mamona, além da confecção de cordas de embira, construção de casas de taipa e de engenhos, o uso do ouricori e do coqueiro e a pesca marítima da “lambuda” – espécie de “arrasto” associado a pescadores posicionados no mar e em terra. Foram nove modos de construir e oito tipos de alimentação descritos nas fichas coletadas.

As entidades pesquisadas, detentoras de acervos relevantes para os propósitos do projeto são o Arquivo Público do Estado de Alagoas, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Museu Théo Brandão, e Museu da Imagem e do Som. Mais 50 referências bibliográficas foram levantadas e coletaram-se vinte e um depoimentos de moradores das localidades abrangidas pela pesquisa.

Registros levantados: quatro instituições pesquisadas e 21 pessoas entrevistadas

Referências bibliográficas levantadas: 50 referências levantadas, resultando em: nove modos de construir e oito modos de alimentar

Produtos
Relatório de atividades - Parte 1
Relatório de atividades - Parte 2
Imagens - Saberes Musicais Quicumbi
Fotografias

Fichas das práticas culturais inventariadas 
Maçaranduba
Mandioca
Casa de Taipa
Corda de Imbira Vermelha
Ingá
Pesca de Lambuda
Cana de açúcar
Bananeira
Mamona
Ouricuri
Cipó de Maracujá
Coqueiro

Recursos
Total:
R$ 53.122,28
Iphan: R$ 41.122,28
Contrapartida: R$ 12.000,00

Indicadores
Região Nordeste:
 Alagoas
Municípios com bens referenciados: Piaçabuçu, Coruripe e Jequiá
Município pesquisado: Maceió
Bioma: Mata Atlântica
Tipo de proponente: Federal
Produto gerado: Pesquisa documental
Público atendido: Pesquisadores do Patrimônio Cultural Imaterial
Tipologia das ações de salvaguarda: Transmissão de saberes; pesquisas, mapeamentos, inventários participativos; constituição, conservação e disponibilização de acervos.

Instituição executora
Universidade Federal de Alagoas (Ufal)
Grupo de Pesquisa Estudos da Paisagem - Departamento de Arquitetura e Urbanismo
Cidade Universitária - Tabuleiro dos Martins
CEP:            - Maceió/AL
Tel.: (82) 3214.1309
E-mail: estudosdapaisagem@gmail.com

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