Gira da Tradição

Na Alagoas de 1912, ocorreu um dos episódios mais violentos na história dos chamados cultos afro-brasileiros. Uma associação civil de caráter miliciano, a Liga dos Republicanos Combatentes, na então chamada “Operação Quebra dos Terreiros de Xangô”, liderou um quebra-quebra contra as principais casas de culto de Maceió e municípios circunvizinhos. Este foi, de longe, o pior caso de intolerância religiosa, preconceito de cor e de abuso de autoridade nas Alagoas. Os terreiros foram temporariamente calados e a trajetória das religiões de matriz afro-brasileira ficou marcada pela destruição de mais de 30 casas religiosas, com o espancamento e humilhação pública de sacerdotes e praticantes.

Após uma diáspora em direção a outros estados da Federação, houve uma retração nas expressões culturais negras da cidade, a exemplo do ocorrido com os maracatus. Os cultos afro-brasileiros, então acusados de feitiçaria e satanismo, passaram a ser praticados com o toque ritual sendo executado apenas com palmas e cantado de forma sussurrada, para não chamar a atenção, recebendo, por esta razão, a denominação de “Xangô Rezado Baixo”.

Xangô é a denominação mais difundida das religiões afro-brasileiras em Alagoas e Pernambuco. Assim como as demais práticas religiosas dessa matriz, a exemplo do Candomblé, da Umbanda, do Tambor de Mina e do Batuque, o Xangô de Maceió se caracteriza como uma religião de iniciação e possessão. Integram-se, ao Xangô de Maceió, elementos dos Nagôs, Gêges, Angola, Moçambique e Ketu, além de entidades espirituais de origem não africana como a cabocla Jurema, por exemplo. Em mapeamento realizado, em 2005, pela Federação Zeladora dos Cultos em Geral no Estado de Alagoas e da Federação Umbandista dos Cultos Áfricos do Estado de Alagoas, foram identificados 135 terreiros (também denominados “toques” ou “xangôs”).

O Projeto Gira da Tradição surgiu em um contexto de preocupações com a transmissão dos saberes tradicionais e das práticas do povo de Santo, da cidade de Maceió, aliado à dinâmica de preservação da memória cultural dos antepassados. Para além de um projeto, o Gira se constitui em um movimento de reconstrução de uma identidade que se mantém viva, apesar de todas as tentativas de negá-la e apagá-la. Por meio da ação proposta pela Fundação Municipal de Ação Cultural, em parceria com a Casa de Iemanjá (Ponto de Cultura Quilombo Cultural dos Orixás), nasceu o projeto que logo depois uniu-se à Associação Artística Saudáveis Subversivos no apoio ao desenvolvimento das suas ações.

O projeto iniciou-se com o estímulo a intercâmbios e trocas de saberes e fazeres entre as diversas linhagens religiosas, objetivando a formação de Griôs aprendizes e o reconhecimento dos Griôs Tradicionais junto às novas gerações, mantendo a cadeia de transmissão desses conhecimentos. Também buscou acessar as informações e registros históricos do papel das religiões afro-brasileiras em Maceió, onde se criou uma maior visibilidade e democratização do acesso a este rico patrimônio imaterial.

As ações desenvolvidas englobaram visitas às federações e a realização de uma oficina de gestão participativa que envolveu 28 lideranças religiosas além daquelas que constavam no plano de trabalho original. A oficina foi avaliada como importantíssima para a gestão democrática do projeto, gerando um grande entrosamento entre os líderes de diferentes casas. Foram realizadas, também, duas oficinas - uma de fanzines e outra de técnicas para entrevistas - e um curso de introdução ao audiovisual, envolvendo em torno de 200 jovens integrantes das diferentes nações. A participação dos cerca de 50 Griôs aprendizes de diversas nações foi preponderante na formulação e realização das entrevistas, em 15 casas.

As oficinas revelaram um novo olhar sobre o cotidiano dos “xangôs”, seus desafios, superações e histórias, e possibilitaram o acesso aos espaços sagrados e fazer com que Griôs aprendizes e tradicionais dialogassem em torno da pluralidade de nações e a unidade do movimento negro. Promoveu-se, também, uma oficina de alimentos sagrados para registrar estes saberes e fazeres, além de aprofundar a discussão das formas de manutenção deste conhecimento tradicional.

Na sequência, foram desenvolvidos três intercâmbios: ervas sagradas, mitologia/ecologia e musicalidade religiosa, com o registro dos diversos ritmos, mitos e usos, nomes das ervas sagradas, e a associação com o orixá ao qual se destinam. Destaca-se a organização dos Griôs aprendizes em rede, além do material de registro e divulgação, os quais foram um sítio na internet, disponível em http://www.giratradicao.org; uma cartilha pedagógica que ilustra conceitos e simbologias da religiosidade; e um vídeo documentário.

Produtos
1.000 cartilhas pedagógicas
500 DVDs
Sete oficinas temáticas
Fotografias

Recursos
Total: R$ 100 mil
Iphan: R$ 80 mil
Contrapartida: R$ 20 mil

Indicadores
Região Nordeste - Alagoas

Município: Maceió
Localidades: Pajuçara, Ponta da Terra, Prado, Trapiche, Bom Parto, Levada, Farol, Chã da Jaqueira e Feitosa e Jacintinho, entre outros bairros e localidades da capital.
Bioma: Mata Atlântica
Tipo de proponente: Municipal
Produto gerado: Publicações, oficinas temáticas e DVD
Público atendido: Afrodescendentes e jovens
Tipologia das ações de salvaguarda: Transmissão de saberes; apoio às condições materiais de produção; capacitação de quadros técnicos para gestão; edições, publicações e difusão de resultados; e ações educativas

Instituição executora e contato
Fundação Municipal de Ação Cultural
Av. da Paz, No. 900 - Jaraguá
CEP:                  - Maceió/AL
Tel.: (82) 3336.0353
E-mail: fccm@maceio.al.gov.br
Internet: http://www.culturamaceio.org.br/
 

 

 

 

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