Quem eram as pessoas que habitaram o Ceará há muitos e muitos anos? Como elas viviam? Quais eram os seus rituais? O que celebravam? O que comiam, como se organizavam socialmente? Como tratavam seus mortos? Enfim, como esse povo contribuiu para a formação do patrimônio cultural do estado e do Brasil? Essas são algumas perguntas ainda sem respostas, mas que, em breve, poderão ser desvendadas em função do trabalho que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico no Ceará (IPHAN-CE) está desenvolvendo na região serrana do município de Baturité, a 90km de Fortaleza. Desde o dia 30 de março, equipes coordenadas pelos arqueólogos Igor Pedroza e Cláudia Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) estão escavando o Sítio Funerário Evaristo, de onde já foi recuperado um conjunto de artefatos, com urnas funerárias, cerâmicas, contas de colares, machadinhos polidos, objetos de pedra lascada, entre outros. Esse material acrescentará novos dados sobre as práticas funerárias de grupos pré-históricos no Brasil.
Um dos destaques entre os artefatos encontrados é o esqueleto humano que, de acordo com as observações iniciais do professor da UFPE, Sergio Monteiro, consultor em arqueologia funerária, aponta para um “indivíduo adulto, com mais de 50 anos de idade, de constituição física relativamente robusta, depositado no interior de uma urna funerária em posição sentada e pernas flexionadas”. Arqueólogos explicam que a prática do sepultamento em urnas possibilitou a preservação. A arqueóloga do IPHAN-CE, Verônica Viana, ressalta que “com a descoberta de urnas funerárias bem preservadas, muitos dados sobre os modos de vida das populações que habitaram a área poderão ser recuperados, especialmente àqueles relacionados às práticas funerárias”.
Acompanhando o esqueleto estavam vários fragmentos de recipientes cerâmicos, ossos de animais, como tatus, lagartos, peixes, pequenos carnívoros e aves. Cinzas e carvões, associados a estes animais nos primeiros sedimentos presentes na urna, parecem indicar uma deposição intencional dos remanescentes de um ritual, possivelmente um banquete funerário. Pequenas panelas, circunscritas a um sepultamento são também indicativos da realização de rituais. Todo o material está sendo analisado em um laboratório improvisado na própria comunidade. Carvões bem preservados seguirão para o laboratório Beta Analytic, nos Estados Unidos, para que possam ser datados com o método do Carbono 14, o que possibilitará saber a época em que o grupo habitou a área. Também estão sendo colhidas amostras de polens para conhecer a paisagem do local e outros aspectos peculiares da relação do homem com o lugar em que habitava.
A participação da comunidade
Além dos arqueólogos e técnicos, as escavações no Sítio Funerário Evaristo contam com o trabalho dedicado de sete estudantes dos ensinos fundamental e médio. Eles são moradores da comunidade Quilombola do Evaristo e atuam nas atividades de pesquisa e socialização dos resultados. A participação dos alunos, previstas no edital publicado pelo IPHAN-CE, foi também motivada pela população local.
Entre as justificativas para a execução da pesquisa, conforme o projeto básico do IPHAN-CE está a da preservação in loco, diferente do ocorre com inúmeros vestígios funerários expostos e depositados em museus do Ceará, sem qualquer informação sobre suas procedências. No Sítio Funerário do Evaristo, a proposta é a construção de um museu, em regime de mutirão, para abrigar as peças encontradas no local.
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