Não há roda sem Mestre, como não há giro sem eixo
Um prêmio reconhece. Um prêmio só confirma o valor de quem se fez na vida. Um prêmio é um modo de dizer que desejamos aquele trabalho mais forte. Um prêmio é um jeito de falar o quanto precisamos dessas presenças.
Premiar um Mestre significa reafirmar seu valor como pessoa e alertar para o quanto ainda temos de desafios no fortalecimento da Capoeira em todas as suas expressões. Em uma prática em que o próprio saber faz de cada capoeira um vitorioso o Prêmio Viva Meu Mestre (em sua primeira edição) contempla 100 nomes para marcar nos dias de hoje o que já é história e testemunho vivo da tradição.
Foram 178 inscrições de todo território nacional e a maioria das regiões do país está contemplada na premiação. É mais uma prova do quanto a Capoeira se apresenta como força mobilizadora da Cultura e avança além das fronteiras para ser base de chão, canto, jogo, ginga, pensar e espírito do patrimônio imaterial do Brasil. E não há roda sem Mestre, como não há giro sem eixo.
Consulte a lista final de classificados entre 1ª e 100ª posição em ordem alfabética
O caminho do reconhecimento
O Ministério da Cultura assumiu o reconhecimento da Capoeira em toda sua complexidade nas relações com o Estado e aprofunda essa construção coletiva desde 2004 quando foram reveladas as intenções de criação do Programa Pró-Capoeira (evento Cultura da Paz na Suiça com a Unesco). Ampla articulação foi iniciada até que por meio do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do IPHAN, em 15 de julho de 2008, a Capoeira, em seu valor histórico, memorial e cultural foi publicamente reconhecida com o registro do Ofício de Mestre de Capoeira e da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil. Após o registro do Ofício de Mestre de Capoeira e da Roda de Capoeira o Ministério da Cultura criou, por meio da Portaria n° 48, de 22, de julho de 2009, o Grupo de Trabalho Pró-Capoeira, composto por representantes do IPHAN, da Fundação Cultural Palmares, da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, da Secretaria de Cidadania Cultural e da Secretaria de Políticas Culturais do MinC.
A partir daí o conjunto do Ministério da Cultura intensifica os encontros e abrem editais para o fortalecimento da Capoeira em sua aproximação mais efetiva com o Estado. No campo mais amplo são iniciados contatos e busca de uma agenda comum com os Ministérios da Educação, Trabalho, Esporte, Relações Exteriores, Congresso Nacional e Previdência obedecendo a demandas indicadas pelo universo da Capoeira, entre as quais se destacam a articulação para a viabilização dos editais do Prêmio Capoeira Viva e a implantação de 112 pontos de cultura também voltados para o incentivo, transmissão e desenvolvimento da capoeira enquanto manifestação artística e cultural.
Objetivos do Prêmio
O Prêmio Viva Meu Mestre surgiu para atender, em caráter de urgência, uma das principais demandas levantadas pelos mestres de capoeira durante a instrução de registro de mestre e da roda de capoeira e na “Carta Brasília” de 20 de agosto de 2009, elaborada no Encontro de Mestres de Capoeira promovido pela Fundação Palmares na ocasião do seu 21º aniversário.
Trata-se de um primeiro passo nesse apoio emergencial aos mestres de capoeira que desempenham ou desempenharam papel fundamental em suas comunidades e que hoje se encontram em idade avançada e em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Com o Prêmio cresceu a base de dados do Programa Pró-Capoeira pelas preciosas documentações enviadas. Foi aperfeiçoado o cadastro de mestres já iniciado e que funciona, tanto para o mapeamento do campo quanto para organização dos encontros de capoeira (em 2010 foram realizados três encontros na busca de fundamentos do Programa de salvaguarda e Incentivo à Capoeira).
O Prêmio Viva Meu Mestre é uma política de reconhecimento e valorização dos “patrimônios vivos” e, portanto, corresponde a uma das ações estratégicas que devem virar realidade na área do patrimônio imaterial nos próximos dois anos, conforme diretrizes estabelecidas no I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, realizado em dezembro de 2009, em Ouro Preto; e a uma das estratégias setoriais para área do patrimônio imaterial estabelecidas pela Conferencias Nacional de Cultura, de março 2010.
Homenagem aos mestres
Mestre Artur Emídio
Artur Emídio de Oliveira Mestre Artur Emídio, nasceu em 31 de março de 1930. Com 7 anos começou na Capoeira e em 1945 iniciava como instrutor. É reconhecido mestre em 1960. Discípulo de Teodoro Ramos, Mestre Paizinho de Itabuna-BA criou o grupo de capoeira Artur Emídio no Rio de Janeiro. Deu aulas em instituições das Forças Armadas e realizou centenas de palestras e demonstrações em escolas e praças. Para ele Capoeira era “tanto esporte quanto luta e ação social: é a luta mais bonita do mundo e ainda desenvolve o psicológico do indivíduo”. Acreditava que sua prática “gerou mais respeito ao próximo e o valor da ética”. Por vocação e natureza, a história de Mestre Artur Emídio fez a ligação da antiga capoeiragem carioca com as gerações mais novas. Seu papel agregador foi fundamental na valorização da "velha guarda" da capoeiragem carioca em um cenário em que a capoeira se esportivizava e cativava os mais jovens. Sobretudo na década de oitenta.
Mestre Peixinho
Marcelo Azevedo Guimarães nasceu em 20 de dezembro de 1947. Começou a praticar em 1964 e atuar como professor em 1967; reconhecido Mestre em 1974. Foi aluno de Claudio Danadinho. Realizou marcantes apresentações em TV e coordenou inúmeras oficinas em comunidades da periferia do Rio. Trabalho atuante na faixa etária de 4 aos 15 anos em sua maioria sob situação de risco. Mostrou a Capoeira em inúmeros circuitos internacionais semeando grupos e discípulos. Foi o organizador do primeiro encontro europeu de capoeira, em Paris, no ano de 1987. Via a capoeira como “porta de entrada” para o contato com a rica diversidade cultural do Brasil, “como a língua, o jongo, o maculelê, o samba etc”. “Capoeira é um fator de integração social e a que mais divulga a nossa língua no mundo”.
Mestre Bigodinho
Reinaldo Santana nasceu na comunidade quilombola do Acupe, Santo Amaro da Purificação-BA em 13 de setembro de 1933. Morava no bairro do Cabula, em Salvador e começou na capoeira em 1950. Em 1960 passa a professor e é reconhecido mestre em 1968. Discípulo de Waldemar da Paixão, jogava na rua Pero Vaz, Liberdade, onde herdou e manteve a linhagem de capoeira Angola da Bahia. Também aprendeu com os mestres Traira e Zacarias. Coordenou o grupo resistência na década de 60, na Lapinha-BA. Dizia “ser do tempo” em que a polícia reprimia as rodas e ameaçavam: “pare senão furo o pandeiro e quebro o berimbau”. “Mas graças a Deus hoje tá diferente”, concluía. Integrou o grupo folclórico Viva Bahia de Emília Biancardi. Compositor, participou de inúmeras gravações em especial de um CD com Mestre Boca Rica. Fala da sua vida no Brasil e no mundo no DVD Tributo a Mestre Bigodinho. Afirmava que preferia “fazer pouco bem feito que o muito mal feito”; “Capoeira não é valentia. É defesa pessoal e cada qual se defende como pode na hora da necessidade”.
Retrato concreto do quanto o reconhecimento dos Mestres de Capoeira exige rapidez e eficácia, por tantos séculos de exclusão e descaso, foram as mortes de três premiados ocorridas ainda no processo de seleção. A perda dos Mestres Atur Emídio, Peixinho e Bigodinho e toda dor causada em seus familiares e discípulos tem o conforto de que seus ensinamentos permanecerão vivos na prática dos que ficaram. Suas histórias de vida mais incentivam a caminhada e os objetivos do Programa Pró-Capoeira para que a construção coletiva em diálogo aberto entre Sociedade e Estado possa honrar tamanha dignidade.