Missões Jesuíticas Guaranis - no Brasil, ruínas de São Miguel das Missões (RS)

As Missões Jesuíticas Guaranis, como um sistema de bens culturais transfronteiriços envolvendo o Brasil e a Argentina, compõem-se de um conjunto de cinco remanescentes dos povoados implantados em território originalmente ocupado por indígenas, durante o processo de evangelização promovido pela Companhia de Jesus nas colônias da coroa espanhola na América, durante os séculos XVII e XVIII.

Inscritos na Lista do Patrimônio Mundial, em dezembro de 1983, esses remanescentes representam importante testemunho da ocupação do território e das relações culturais que se estabeleceram entre os povos nativos, na maioria do grupo étnico Guarani, e missionários jesuítas europeus. No Brasil, estão localizadas as ruínas de São Miguel Arcanjo, mais conhecido como São Miguel das Missões.

Esses bens também expressam em parte a experiência da Companhia de Jesus no território americano, produzida na chamada Província Jesuítica do Paraguai, que compreendia um sistema de relações espaciais, econômicas, sociais e culturais singulares, conformada à época por 30 povoados, chamados de reduções. Esse complexo incluía ainda estâncias, ervais, redes de caminhos e vias fluviais estendidas pela bacia do Rio Uruguai e de seus afluentes. A experiência, produzida durante os séculos XVII e XVIII, abrangia uma extensa área da América Meridional, correspondente, nos dias atuais, a regiões do Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil.

História - O povo de São Miguel Arcanjo, ou das Missões, era uma das reduções do Estado Jesuítico do Paraguai que formava, com seis outros, os Sete Povos das Missões. Era uma reunião de grupos catequizados jesuítico-guaranis situados no nordeste do atual Estado do Rio Grande do Sul, em território brasileiro, às margens do rio Uruguai. As outras reduções dessa região se transformaram em cidades ou, simplesmente, desapareceram: São Borja (1682), São Nicolau (1687), São Luiz Gonzaga (1687), São Lourenço (1691), São João Batista (1697) e Santo Ângelo (1706).

A instalação de São Miguel das Missões no sítio atual data de 1687, mas teve origem em 1632, com um aldeamento de catequizados que os padres jesuítas fundaram em Itaiacecó, na margem direita do rio Ibicui, aos pés da serra de São Pedro. Sua fundação é atribuída aos padres missionários Cristobal de Mendoza e Paulo Benevides.

A partir de 1637, os ataques dos caçadores paulistas de índios aos aldeamentos de catequizados dos jesuítas se intensificaram o que provocou o deslocamento do Povo de São Miguel Arcanjo para as terras de Concepción. Todavia, o novo lugar mostrou-se pouco favorável para um grupo numeroso, o que levou os padres a buscar outro local para a missão. A escolha final recaiu sobre um sítio às margens do Piratini onde o novo aldeamento de São Miguel foi fundado, quando já contava com quase quatro mil índios alojados e cristianizados. As condições econômicas da redução melhoraram neste novo local devido à qualidade do pasto para o significativo rebanho (bovino, equino, caprino) necessário à subsistência e à terra que se mostrou favorável à agricultura.

São Miguel foi construído em uma colina, o que favorecia o escoamento das águas pluviais abundantes pelo excesso de chuvas do verão gaúcho. No centro da redução e em frente à igreja foi construída uma praça quadrangular que media aproximadamente 130 mestros de lado. O colégio, a igreja e o cemitério ocupavam o lado norte e nos outros três lados restantes se erguiam as casas dos índios, das quais restam apenas as ruínas das fundações construídas em blocos com telhados de quatro águas e rodeadas por alpendres. Na parte detrás, os padres prepararam uma quinta, inteiramente murada de pedras com jardim, pomar e horta.

A construção da Igreja de São Miguel durou dez anos e seu projeto foi inspirado na Igreja de Gesú em Roma – principal templo jesuítico – atribuído ao arquiteto jesuíta Gian Battista Primolli, concluída em 1745, no final do período barroco. O requinte dessa concepção arquitetônica pode ser evidenciado pelas ondulações côncavas da fachada principal e a leve inclinação dos planos externos que, por meio da correção da perspectiva, tinha o propósito de enfatizar o caráter monumental da obra. Erguido com pedra de cantaria, branqueada com um tipo de argila chamada tabatinga, o edifício possuía características diferentes das demais construções missioneiras da época: a estrutura era definida por paredes de pedra, ao invés dos comuns esqueletos de madeira. Na falta da cal, não disponível na região, o barro era o material ligante das alvenarias.

Seguindo a tradição da época, a Igreja de São Miguel apresentava uma rica e colorida ornamentação interna, formada por entalhes, pinturas e esculturas com motivos sacros. Algumas imagens, feitas em arenito, compõem o acervo do Museu das Missões. Além dos saques ocorridos durante a Campanha Cisplatina, em 1828, a igreja foi vítima da ação dos aventureiros que buscavam o tesouro dos jesuítas e retiraram muitos materiais para uso em outras construções. Em 1886, a os telhados ruíram e o pórtico desabou. O longo período de abandono levou ao crescimento de grandes árvores no interior da nave.

Patrimônio tombado - Os elementos integrantes do conjunto declarado não se encontram ameaçados, sendo preservados pela atuação direta da ação governamental principalmente, tanto na Argentina como no Brasil. No caso brasileiro, os vestígios materiais existentes do sítio - corpo principal da igreja, campanário e sacristia, partes das construções conventuais, fundações e bases das habitações indígenas, praça, horto, canalizações pluviais, objetos sacros - permitem expressar este singular modelo de ocupação territorial permeado pela interação e troca cultural entre os povos nativos e os missionários europeus.

Em São Miguel das Missões, a legibilidade e o entendimento da configuração espacial do sítio, capaz de expressar o cotidiano da redução, podem ser atestados por documentos que descrevem sua implantação e organização. A sua autenticidade física está mantida pelos materiais e técnicas construtivas originais. As intervenções ocorridas ao longo dos anos datadas desde a época de funcionamento da redução foram executadas para manter a estabilidade estrutural do bem. Tais intervenções estão identificadas e mapeadas.

Em 1938, esses remanescentes foram tombados como patrimônio nacional. Dois anos depois, foi criado o Museu das Missões, destinado ao recolhimento e à guarda da estatuária da Igreja de São Miguel. Em 1983, juntamente com as Missões localizadas em território argentino de San Ignacio Mini, Santa Ana, Nuestra Señora de Loreto e Santa María La Mayor, São Miguel das Missões foi declarada Patrimônio Cultural Mundial pela Unesco.

Esses locais são considerados, atualmente, monumentos históricos com finalidade cultural e turística expressiva, e altamente significativos para o desenvolvimento local das comunidades envolvidas. Como exceção, esses sítios são usados para eventos religiosos ou recreativos.

 

Declaração retrospectiva
Dossiê de candidatura
Avaliação Icomos

 

Igreja de São Miguel das Missões (RS)

  • Igreja de São Miguel
    A Igreja de São Miguel, em estilo barroco, foi construída pelo arquiteto italiano Gian Batista Primoli, a partir de 1735
  • Ruínas da Igreja de São Miguel
    Estruturada em pedra arenito, era pintada de branco e tinha seus espaços interiores ornamentados por pinturas e esculturas de madeira policromada
  • Cruz e igreja em São Miguel das Missões
    A igreja fica localizada em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
  • Ruínas da Igreja de São Miguel
    Os remanescentes do antigo povo de São Miguel foram tombados pelo Iphan em 1938
  • Ruínas em São Miguel das Missões
    No local funciona o Museu das Missões, criado em 1940, que reúne importante coleção de imagens sacras e de fragmentos missioneiros
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