Vila Ferroviária de Paranapiacaba (Santo André - SP)

Com forte influência inglesa em sua estrutura urbana, a Vila apresenta afastamentos em frente às casas, algo pouco comum à época, mas que possibilitava a construção de jardins.

A Vila Ferroviária de Paranapiacaba - localizada no município de Santo André, no Estado de São Paulo -  foi tombada pelo Iphan, em 2008. A vila e seu entorno formam uma porção de território de grande importância histórica e ambiental, que registra uma época da influência da cultura inglesa, com destaque para a arquitetura e a tecnologia. Duas povoações cresceram em torno da construção da Ferrovia Santos-Jundiaí: Vila Velha e Vila Martim Smith, que formam a atual Paranapiacaba. 

Vila Velha estabeleceu-se junto ao caminho que, mais tarde, se tornou a Rua Direita. A área também começou a ser ocupada por comerciantes que forneciam produtos aos ferroviários. Em Vila Velha, ocorreu uma ocupação urbana espontânea, a partir da implantação do canteiro de obras da ferrovia, enquanto a Vila Martin Smith resultou de um plano urbanístico claro e implantação de edifícios padronizados.

O plano urbanístico da Vila Martin Smith foi considerado extremamente inovador para a época, com ruas largas de traçado ortogonal e regular, edifícios padronizados, casas com recuo frontal e jardins, e vias hierarquizadas. Enquadrada pela Serra do Mar, caracteriza-se pelas edificações em madeira, com tipologias arquitetônicas pré-definidas. As casas eram construídas, geralmente, recuadas em relação ao alinhamento da rua, possibilitando a existência dos jardins, que não eram comuns no início do século, nem mesmo na capital. 

A área pertencia à Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e foi adquirida pela Prefeitura Municipal de Santo André, em 2002. Localizada na região sudeste do município, no limite entre o Planalto Paulista e a Serra do Mar, a vila integra a região metropolitana de São Paulo. O município possui 55% do seu território em área de mananciais, que compõem o cinturão verde da capital paulista, com vegetação de Mata Atlântica. 

História - Paranapiacaba ("lugar de onde se vê o mar", em tupi-guarani) está localizada em local onde, durante os dias claros, os indígenas que passavam por ali avistavam o mar, depois de subir a Serra do Mar rumo ao planalto. No século XIX, naquele caminho íngreme utilizado pelos índios, desde os tempos pré-coloniais, seria construída uma estrada de ferro que mudaria a paisagem do interior paulista.

A expansão da cultura do café no Vale do Paraíba (estados do Rio de Janeiro e São Paulo) determinou a construção da Ferrovia Santos-Jundiaí. A próxima região ocupada pela cultura cafeeira seria o oeste paulista, no interior do Estado e tornou-se urgente encontrar um meio de escoar o café com maior facilidade para o Porto de Santos. Os primeiros estudos para a implantação da ferrovia começaram em 1835 e, a partir de 1850, o projeto começou a sair do papel, por iniciativa do Barão de Mauá. 

A Vila de Paranapiacaba situa-se onde se instalou o Centro de Controle Operacional e Residência para os funcionários da companhia inglesa de trens São Paulo Railway, que realizava o transporte de passageiros e da produção de café das fazendas paulistas para o Porto de Santos. Assim, a ocupação dessa região está associada à construção da Ferrovia Santos-Jundiaí, a partir de 1860, com as obras comandadas pelo engenheiro inglês Daniel M. Fox. 

Após a inauguração da ferrovia, em 1867, o acampamento passou a ser utilizado pelos operadores e mantenedores da maquinaria e do tráfego ferroviário. Assim, construiu-se a Estação Alto da Serra, primeiro nome dado ao lugarejo. Devido à sua localização, último ponto antes da descida da serra, a vila começou a ganhar importância. Na mesma época, em torno da Estação São Bernardo, surgia futura cidade de Santo André, à qual pertence à Vila de Paranapiacaba. 

A ocupação no interior do Estado se consolidou graças à estrada de ferro. O comércio e a produção agrícola aumentaram significativamente e a ferrovia começou a ser duplicada. Paralelamente às obras de duplicação, a vila também era modificada. No alto de uma colina, os ingleses construíram a casa do engenheiro-chefe, chamada de Castelinho, de onde toda a movimentação no pátio ferroviário poderia ser observada. Nessa época, também foi erguida a Vila Martim Smith com casas em estilo inglês, de madeira e telhados em ardósia, para servir de moradia aos funcionários da empresa. 

Em 1900, o novo sistema de planos inclinados é inaugurado e recebe o nome de Serra Nova. Do outro lado da estrada de ferro, a Parte Alta de Paranapiacaba, que não pertencia à companhia, seguia padrões arquitetônicos diversos daqueles da vila inglesa. Até meados da década de 1940, os moradores do local viviam como uma grande família na vila bem cuidada, com ruas arborizadas e casas pintadas. O Clube União Lira Serrano - centro de uma intensa atividade sociocultural - promovia bailes, jogos de salão, competições esportivas, encenações teatrais, exibições de filmes e concertos da Banda Lira. 

O período de concessão da empresa São Paulo Railway Co. terminu em 1946, e todo seu patrimônio é incorporado ao da União, fato apontado pelos antigos moradores como o início da decadência da vila. Com a desativação parcial do sistema funicular, na década de 1970, parte dos funcionários é dispensada ou aposentada e outros são contratados, para cuidar do novo sistema de transposição da serra, a cremalheira-aderência.

Monumentos e espaços públicos tombados: Museu Funicular (abriga a exposição permanente de fotos e diversos objetos de uso ferroviário), Mercado de Secos e Molhados (construído, em 1899, depois de restaurado passou a funiconar como o Centro Multicultural) e o Castelinho (atual Museu do Castelo, situado entre Vila Velha e a Vila Martin Smith, foi construído por volta de 1897 e era utilizado como a residência do engenheiro-chefe e gerente do tráfego de trens da Serra do Mar. Sua imponência simbolizava a liderança e a hierarquia que os ingleses impuseram a toda a Vila).

Fontes: Arquivo Noronha Santos/Iphan e IBGE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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