Literatura de Cordel encanta público da Flip

Detalhes da cultura cordelista, que permeia a música, a dança e o teatro

Durante a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), no Rio de Janeiro, quem se aproximava do Escritório Técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) da Costa Verde de longe percebia uma sinfonia singular: o ritmo da sanfona, o declamar de versos, as rimas improvisadas de repentes e as palmas do público regeram o espaço entre os dias 11 e 14 de julho. Oriundos de vários estados, cordelistas convidados representaram uma parcela pequena da programação. Ainda assim, o cordel entoou a sua voz autêntica e validou o sentido mais festivo da expressão festa literária.

A presença dos poetas ecoou pelas ruas do centro histórico da cidade, entrou nos casarões antigos e colocou a cultura popular nordestina no escopo de um dos maiores eventos literários do país. A cordelista Dalinha Catunda, do Ceará, explica que “é muito bom pro cordel ser reconhecido não como uma literatura menor, mas como um gênero em pé de igualdade a tantos outros”. A iniciativa de integrar-se à Flip partiu dos próprios poetas. Na esteira do registro da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil, em setembro de 2018, instauraram a embaixada da cultura cordelista nas dependências da Casa Iphan, termo que denominou o escritório no decorrer da programação.

Os versos do cordel embalaram poetas, funcionários do Instituto e público na mesma sintonia. A cordelista Cleusa Santo, de São Paulo, defendeu que Paraty nunca mais será a mesma depois da Literatura de Cordel. “Nossa arte tem dois públicos: aquele que a ama e aquele que ainda não a conhece”, defendeu. Os limites espaciais do escritório não contiveram a alegria dos escritores: a felicidade transbordou pela Praça da Matriz e chegou aos ouvidos curiosos de quem se aproximava para cantar e de quem esboçou alguns passos de forró.

Cordelistas se entrosaram com o público durante o eventoO entrosamento entre cordelistas - inclusive os que não se conheciam previamente - se evidenciou no empenho com que elaboraram estratégias para que os folhetos dispostos em localização desfavorável pudessem ser notados pelos compradores. A harmonia transpareceu nos olhares e nos gestos para culminar com uma recepção calorosa por parte do público. O estudante paulista Marcello Boada não conhecia o gênero, mas relata que, ao ver a Casa Iphan, teve vontade de entrar. Ali, foi introduzido à cultura cordelista pelos autores, que não se cansavam de apresentar as histórias de amores inabaláveis, vinganças sangrentas e os causos divertidos comuns aos folhetins.

Na manhã do dia 12 de julho, jovens das escolas Martins de Sá e Cajaíba, localizadas em Paraty, ocuparam o palco para ler os versos que, inspirados pelo cordel, escreveram acerca das comunidades onde vivem. Na ocasião, os adolescentes aprenderam e ensinaram na cadência de gargalhadas motivadas pelos repentes que o poeta paraibano Severino Honorato lhes dedicou.

A Literatura de Cordel

Cordel invadiu as ruas de Paraty durante a FLIPAlém de ser uma manifestação artística, o cordel apresenta um amplo leque de finalidades, tais como educar, entreter e informar. A cordelista Anilda Figueirêdo, do Ceará, destaca que se trata do primeiro meio de comunicação a chegar em pequenas comunidades do Nordeste. “O poeta era um comunicador. Através dos folhetos se soube da morte de Getúlio Vargas, e ainda hoje por meio deles se aprende como prevenir a dengue. O cordel foi o nosso primeiro livro, a nossa cartilha de alfabetização. A gente não tinha acesso a outras leituras, mas os versos cordelistas nos despertavam o prazer em ler”, relembra.

A articulação entre o ensino e o cordel também teve impacto transformador na vida do poeta Josué Gonçalves de Araújo, de São Paulo. Apesar de ser analfabeta, sua avó decorou cordéis após ouvi-los repetidas vezes no interior da Bahia. Ele ressalta que se apaixonou por livros quando ela lhe contou o primeiro cordel. “Naquela noite eu não dormi: descobri o mundo literário e corri para a escola. Passei a ler para esquecer a miséria do dia e a criar histórias que mais adiante eu escrevi”, recorda. Quarenta anos depois desse contato inicial, lançou o seu primeiro livro de cordel na mesma editora que publicava a história que a avó lhe declamara de memória. De ouvinte encantado, o menino pobre se tornaria um autor premiado.

Escritório Técnico do Iphan da Costa VerdeEm visita ao espaço dedicado ao gênero, o ilustrador Alberto Pinto destaca que se trata de uma expressão nacional muito rica. “É interessante como os folhetos conseguem sair do nicho nordestino de onde nasceram e se espraiam até incluir versões dos livros clássicos. Toda a cultura mundial e nacional está representada no cordel”, conclui. A Casa Iphan testemunhou que o cordel nunca deixou as malas viajantes: continua a atravessar territórios na bagagem de quem se apaixona por sua poesia e decide divulgá-lo por onde passa. Paraty foi a estação da vez, mas os versos cordelistas ainda têm um vasto espaço a percorrer e a conquistar.

 

 

 

 

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